Pintura Arq. Eduardo Moreira Santos, Lx (28.08.1904 - 23.04.1992)

sábado, 19 de agosto de 2017

China – Futebol e o intercâmbio intercultural

A cidade de Shijiazhuang, capital da província de Hebei, foi o palco da segunda edição do Torneio Amigável de Futebol para Alunos do Ensino Médio Brasil-China, uma competição que visa o intercâmbio cultural entre estudantes brasileiros de mandarim e alunos chineses de escolas locais

Depois do sucesso que marcou a iniciativa lançada no ano passado, o Torneio Amigável de Futebol para Alunos do Ensino Médio Brasil-China voltou a decorrer este ano, em Shijiazhuang, na província de Hebei. Para a organização, o evento pretende não apenas incentivar os alunos brasileiros a interagir com os locais, aprofundando os seus conhecimentos sobre a cultura chinesa, como também proporcionar aos alunos chineses uma porta de acesso ao universo futebolístico e cultura do Brasil.

Focando-se no intercâmbio cultural e no desenvolvimento do futebol nacional, o Instituto de Desporto da Universidade Normal de Hebei (UNH), em parceria com a Shijiazhuang Danqiur Sports&Communication Co. Ltd, decidiu avançar para a organização da segunda edição do torneio. Neste ano participaram duas equipas do ensino médio do Instituto Intercultural Brasil-China (uma masculina e outra feminina), do Rio de Janeiro, e equipas representantes de nove escolas locais.

Huang Dawei, director do Departamento do Ensino e Pesquisa da UNH, defende que, apesar das barreiras linguísticas existentes entre os participantes, “a linguagem do futebol é universal, ajudando a eliminar a sensação de distanciamento entre as duas nacionalidades e promovendo a comunicação intercultural”, referiu o responsável, citado pelo Diário do Povo.

Salientando a importância de aparecerem talentos nacionais e estrangeiros bilingues, Huang espera que sejam criados programas de acolhimento que permitam aos alunos brasileiros viver na China, com famílias chinesas, de modo a garantir o “aprimoramento linguístico e a compreensão cultural, tal como a partilha de conhecimentos de artes marciais, ping-pong, futebol e até de samba”.

A par do plano de desenvolvimento da capacidade futebolística do país asiático, “cada vez mais treinadores brasileiros pretendem vir para a China para ensinar e treinar. Contudo, a língua continua a ser um enorme obstáculo”, acrescentou.

Oriundos do Colégio Estadual Matemático Joaquim Gomes de Sousa, também conhecido como Instituto Intercultural Brasil-China — instituição co-fundada em 2015 pelo governo do estado do Rio de Janeiro e a UNH — 26 alunos integrantes do projecto que envolve a aprendizagem de futebol e mandarim deslocaram-se até Shijiazhuang, acompanhados por treinador e professores.

João Kelis, de 15 anos, capitão da equipa masculina, e Ana Beatriz, 16 anos, jogadora da equipa feminina, decidiram estudar mandarim pelas oportunidades que a língua chinesa lhes poderá proporcionar no futuro, considerando o idioma uma mais-valia no currículo. “As coisas mais difíceis rendem melhores frutos. Se me esforçar mais para aprender o mandarim, melhor será o meu futuro”, considera João, que espera ter a oportunidade de estudar na China.

Ambos descrevem a China como um país organizado, não só pela forma como o trânsito está organizado nas ruas, como também pela metodologia aplicada ao futebol. Apesar do choque cultural, os dois estudantes não deixaram de salientar pela positiva outros aspectos, como a grandiosidade dos monumentos, a extravagância gastronómica ou a simpatia do povo chinês. “O Brasil deve fazer um investimento maior na educação para criar mais possibilidades de intercâmbio como esta, que nos permite vir aqui desfrutar da cultura chinesa, e os chineses da nossa também”, defendeu João.

Cativar os alunos com o desporto

Acompanhando os alunos, quer na aprendizagem, quer durante a deslocação, Ana Qiao, directora do Instituto Confúcio da Pontifícia Universidade Católica (PUC), afirmou que “a competição, ou o futebol, não são o objectivo principal” desta actividade. “Esperamos que através do futebol possamos vir a cultivar o interesse dos alunos”, apontou.

O Instituto Intercultural Brasil-China é a primeira escola a tempo inteiro com ensino bilingue, almejando cultivar talentos com capacidades linguísticas e conhecimentos culturais sobre a China. “Também ajudamos os alunos a dominar outras capacidades, a criar a noção de organização e disciplina”, explicou Ana, nutrindo a esperança de que, no futuro, possa vir a testemunhar o aumento do número de alunos brasileiros com a possibilidade de se deslocarem à China para estudar.

Lucas Cordeiro Alcantara, de 26 anos, foi o treinador de ambas as equipas e estuda mandarim desde 2016. “Apesar de ainda saber muito pouco, o estudo da língua chinesa proporcionou-me um maior conhecimento da cultura. Quanto mais procuro, mais encantado fico”, afirmou.

Descrevendo o torneio como uma actividade importante de intercâmbio cultural, o treinador espera que “o Brasil esteja a focar-se mais sobre esse aspecto [investimento na educação e no intercâmbio]. Acho que a China deve apostar também, porque vão aparecer bons resultados”.

Procurando o desenvolvimento de uma metodologia centrada no desenvolvimento dos jogadores como atletas e cidadãos, Lucas prevê um futuro auspicioso no que diz respeito ao cumprimento dos objectivos que a China traçou para o futuro. In “Jornal Tribuna de Macau” - Macau

O cruel realismo do cais do porto: Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves

                                                            I
Mais de uma vez se chamou a atenção do público-leitor para uma curiosa contradição que parece ter-se instalado de maneira sólida e obstinada no universo literário brasileiro, a qual não nos custa repetir: enquanto a recente produção literária nacional revela-se impressionantemente criativa, ela recebe, em contrapartida, um tratamento incompatível com sua qualidade estética, principalmente nos meios de comunicação e nos canais de divulgação artística, isto quando não são relegadas ao completo ostracismo, resultado de um silêncio ao mesmo tempo pérfido e cruel. Tal constatação procura, antes de mais nada, colocar por terra a propalada tese de que a literatura nacional estaria vivendo uma grave e crônica crise criativa, opinião assentada antes sobre um imponderado exercício de impressionismo crítico, do que sobre uma análise imparcial da atual realidade estética de nosso país.

Exemplo claro, entre outros, de uma literatura em muitos aspectos reveladora – e, sintomaticamente, pouco lembrada pela crítica – é a obra literária do jornalista e escritor Adelto Gonçalves, que com o seu premiado romance Os Vira-latas da Madrugada (1981) está por merecer um lugar de destaque dentro da mais recente produção literária nacional. Natural da litorânea cidade de Santos e tendo dedicado grande parte de sua atividade profissional ao jornalismo, Adelto Gonçalves é um típico exemplo do descaso que a crítica literária contemporânea tem devotado aos mais novos escritores.

Tal descaso, contudo, revela-se de todo injustificado: manipulando basicamente duas categorias universais distintas – o homem e o meio –, Adelto Gonçalves procura, em seu romance, retratar o embate travado entre ser e espaço, entre o físico e o humano, embate este marcado por uma forte carga emotiva e realista. Neste sentido, não nos parece demasiado exagero afirmar que o autor se coloca, embora em menor grau, entre alguns dos continuadores da tradição literária que reconhece no espaço um componente privilegiado do romance, elemento no qual o ser alcançaria sua plena realização ou a sua mais absoluta decadência.

Assim, poder-se-ia inserir sua obra, feitas as devidas ressalvas, na categoria do que a teoria literária convencionou chamar de “romance de espaço”1, em que talvez pudéssemos introduzir nomes tão relevantes como os de José Eustasio Rivera (La Vorágine), Euclides da Cunha (Os Sertões) e Rómulo Gallegos (Doña Bárbara), para ficarmos apenas nos latino-americanos. Logicamente, semelhante observação não busca dar ao romance de Adelto Gonçalves o mesmo grau de importância desses que, indubitavelmente, podem ser considerados verdadeiros clássicos da Literatura Latino-Americana, mas apenas revelá-lo como mais um dos originais herdeiros de tão fecunda tradição.

Deste modo, se nas obras aqui citadas o que se verifica, acima de tudo e num primeiro instante, é a disputa que acirradamente trava o homem e a floresta (Rivera), o homem e o sertão (Cunha) e o homem e a planície (Gallegos), em Os Vira-latas da Madrugada o mesmo embate pode ser percebido entre o homem e o cais do porto, um espaço, como todos os demais aqui aludidos, marcado por características peculiares, por normas e leis próprias, por uma realidade singular.

                                                           II

O romance de Adelto Gonçalves desenvolve-se em Paquetá, bairro da zona portuária de Santos, onde aliás o autor viveu a maior parte de sua vida. É um romance de muitas personagens, embora com pouco destaque para elas, já que, como fora aludido, é o componente espacial que ganha maior relevo no decorrer dos acontecimentos; a existência trágica, o sofrimento cotidiano, a luta homérica contra um meio físico subversivo parecem ser o elo inexorável que liga figurantes e personagens a um destino comum. No rastro desses elementos, o autor procura dar aos acontecimentos um caráter documental, seja por vários de seus episódios estarem assentados em fatos do cotidiano, trazidos à tona por meio das reminiscências do próprio autor (“eu era muito pequeno, quando algumas destas histórias aconteceram”)2, seja pela tentativa confessada do autor em colocar em seu romance personagens que um dia existiram de fato. Não obstante o romance tender ao documental, Adelto Gonçalves não hesita em rechaçar qualquer intenção em fazê-lo histórico (“não pretende este livro uma imagem de histórico”, p.31).

Analisando o cenário em que os episódios se desenrolam, percebe-se que, com uma habilidade inquestionável, Adelto Gonçalves desloca a narrativa de cenário tradicional, caracterizada pela dicotomia cidade/campo, para uma realidade totalmente nova e diferente – o cais do porto. Sem ser campo, mas também sem chegar a ser completamente cidade, o cais do porto parece situar-se numa zona limítrofe, num indefinível meio-termo, universo norteado por uma espécie curiosa de natural dicotomia: contém, ao mesmo tempo – e numa mistura que apenas um espaço com características tão originais poderia conter –, particularidades tanto do campo quanto da cidade, o que nos permite reformular nossa afirmação anterior: para além de ser uma região dicotômica, o cais do porto é, sobretudo, um espaço híbrido.

Por ser híbrido, ele também agrupa em si o arcaico e o moderno, trazendo consigo todas as infinitas contradições que esta mistura pode acarretar: excessos, desvios e, principalmente, injustiças. Caberia, a esta altura, perguntar em que o meio físico do cais, stricto sensu, se difere dos demais. Em que, realmente, ele é peculiar? Uma simples análise da descrição que o autor faz do local parece-nos suficiente para que estas peculiaridades aflorem em definitivo:

“mais adiante, viu novamente os armazéns das docas, uma locomotiva passando rápida, solitária, os guindastes que se sobressaíam além do teto dos armazéns. De vez em quando, um caminhão passava, em meio aos buracos, espirrando lama das poças fétidas – um cheiro de mistério como o de todos os portos do mundo. E perdeu-se na zona do Golfo: à esquerda, um sem-fim de armazéns amarelos, sujos, descaiados – cargas em fileiras nas ruas, cobertas por encerados, um policial adiante –, à direita, uma longa fila de botequins – mulheres desenxabidas sentadas às portas, olhando a chuva batendo nas pedras das ruas, nas latas vazias” (p. 21).

                                                           III
Guindastes e botequins, lama e prostitutas, música e locomotiva: tudo parece contribuir de maneira inusitada para a composição de um cenário francamente grotesco; a conformar sua paisagem, há ainda a presença sugestiva de morcegos e ratos, da densa lama a se espalhar continuadamente por todo o cais, da atmosfera decadente do local, além de sua aparentemente natural subversão.3

No limite, contudo, é o elemento humano que faz do cais o que ele realmente é, fisicamente ou não: um mundo à parte, marcado pela violência e pela injustiça, pela extrema individualidade e absurda inconsequência, pela trágica fatalidade a se refletir nos olhos dos homens e pela contundente tristeza a dissimular-se no sorriso acanhado das mulheres:

“mas igual a este beira-cais, como dizem os velhos marinheiros, não existe lugar em outra parte do mundo. Aqui é onde as mulheres das ruas já não brigam mais por causa da traição do amante, mas porque a outra lhe roubou o freguês; onde os moleques, vira-latas da madrugada, percorrem a noite inteira em busca de um otário, roubam os bêbados caídos nas calçados, dormem com os pederastas e vivem de pequenos furtos (...); onde os pretos esfarrapados se deitam nos vãos de porta e dormem com o cuspe grosso de cachaça escorrendo no canto da boca e sonham com a família que não tiveram e com a moça loira que anuncia Coca-cola (...); onde as pessoas têm a cor do rosto amarelada, pálida, os olhos fundos, o cabelo ensebado, a pele macilenta como a dos jogadores de sinuca” (p. 33).

E assim chegamos ao outro pólo do embate que – ao lado do espaço romanesco – a obra de Adelto Gonçalves procura retratar: o humano. Em Os Vira-latas da Madrugada, as cenas como que se desprendem das páginas do livro para preencher um espaço na mente do leitor: não são cenas simples, comuns, mas antes passagens dotadas de uma intensa complexidade existencial, que se esconde por detrás de cada ato realizado ou de cada palavra proferida.

Uma questão social se impõe logo de início: Os Vira-latas da Madrugada são um romance dos marginalizados. Em suas páginas, prolifera-se todo um universo por meio do qual o autor procura revelar a crua e violenta realidade do cais, onde bêbados e prostitutas disputam um espaço nos botequins, onde meninos de rua partem em busca de algum dinheiro fácil, onde trabalhadores tristes e solitários – embrutecidos pelo ofício duro e desvalorizado – pervagam sem destino pelas ruas enlameadas. Assim, temos um quadro de relações sociais completamente subvertidas nesse mundo em que reinam a malandragem, o poder perverso e a exploração.

Entre o patético e o selvagem, há a dura realidade – seja ela a realidade da prostituição, seja ela a realidade do poder. Assim, aos olhos de Sula, a realidade de uma existência prostituída – mais do que a de um corpo prostituído – mistura-se melancolicamente com o seu passado ideal, agora, mais do que nunca, distanciado do presente; e esta é apenas mais uma das muitas mulheres que cumprem rigorosamente um destino marcado pela humilhação, pela violência e pela tragédia pessoal. No que diz respeito à realidade do poder, também pode-se perceber no romance todas as suas perversões, todos os seus desvios, quer se trate do poder político constituído, do poder policial-repressor ou do poder da coerção social.

O que sobra de tudo isso é uma compreensão profundamente pessimista da realidade, a qual é compartilhada por quase todas as personagens do romance, mas particularmente por Marambaia.

Também o leitor é tomado, de certa maneira, pelo clima pessimista que logo se impõe: acompanhando de perto a narração dos acontecimentos no cais, ele passa, involuntariamente, a sofrer com as personagens da história, compartilhando de seus anseios e angústias, de suas tristezas e desgostos, de seus tormentos e aflições.

As últimas palavras do autor marcam o encerramento do romance, mas também atam as duas pontas de um fio narrativo que vinha percorrendo toda a obra. Sua conclusão revela-se particularmente constrangedora – como o próprio autor faz-nos perceber, trata-se de uma autêntica confissão, onde se pode facilmente distinguir a mescla de dor e revolta que a conforma:

“as vozes que me trouxeram até aqui já não ouço mais. Estão mortas, estão assassinadas. Este irregular relato é só uma homenagem a essas vozes que se calaram cansadas de testemunhar tanta ignorância e violência em nome de valores morais que a ambição já desmoralizou há muito tempo” (p. 163).

Suas cruéis histórias, por isso, são tão mais cruéis quanto mais reais se tornam com o tempo. Maurício Silva - Brasil


Notas
1 KAYSER, Wolfgang. Análise e Interpretação da Obra Literária. Introdução à Ciência da Literatura. Coimbra, Arménio Amado, 1976.
2 GONÇALVES, Adelto. Os Vira-latas da Madrugada. Rio de Janeiro, José Olympio, 1981. Todas as referências a esta obra serão retiradas desta edição, doravante aparecendo apenas o número da(s) página(s) em que se encontram.
3 Para uma definição sucinta do grotesco, consultar: MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários. São Paulo, Cultrix, 1978, e KAISER, Wolfgang. O Grotesco. São Paulo, Perspectiva, 1976.


Publicado em Sentidos Secretos – Ensaios de Literatura Brasileira (São Paulo, Editora Altana, 2005, págs. 137-144) e em Leopoldianum. Revista de Estudos e Comunicações, Santos, vol. XX, nº 56: 144-149, abr. 1994.

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Os Vira-latas da Madrugada, de Adelto Gonçalves, 2ª edição, com prefácio de Marcos Faerman, apresentação de Ademir Demarchi, posfácio de Maria Angélica Guimarães Lopes e ilustrações e capa de Enio Squeff. Taubaté-SP: Associação Cultural Letra Selvagem, 216 págs., 2015, R$  35,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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Maurício Silva possui doutorado e pós-doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas pela Universidade de São Paulo; é professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação, na Universidade Nove de Julho (São Paulo); atuou como pesquisador da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro de 2012 a 2013 e, atualmente, é pesquisador residente da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo; é autor de A Hélade e o Subúrbio. Confrontos Literários na Belle Époque Carioca (São Paulo, Edusp, 2006), A Resignação dos Humildes. Estética e Combate na Ficção de Lima Barreto (São Paulo, Annablume, 2011), e O Sorriso da Sociedade. Literatura e Academicismo no Brasil da Virada do Século (1890-1920) (São Paulo, Alameda, 2012), entre outros.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Moçambique - Cartão vermelho ao trabalho infantil

O vice-ministro do Trabalho, Emprego e Segurança Social, Oswaldo Petersburgo, instou a todos os estratos da sociedade moçambicana a levantarem bem alto o cartão vermelho contra as piores formas do trabalho infantil.

Segundo o governante, as piores formas de trabalho infantil ocorrem em locais que escapam ao controlo das autoridades, citando como exemplo ambientes informais e no seio familiar, em que a sociedade só se dá conta da sua existência quando ocorrem maus tratos e violência.

Segundo Petersburgo, este facto chama à atenção para a necessidade de envolvimento directo e activo das famílias, das confissões religiosas e das comunidades, onde as crianças estão inseridas, para uma acção conjunta e vigorosa que contribua para a mitigação e eliminação deste mal.

“Não há dinheiro que adie ou pague o sonho de uma criança! Lutemos contra o trabalho infantil! Não deixemos que as crianças parem de sonhar e viver a sua infância! Levantemos bem alto o cartão vermelho contra as piores formas do trabalho Infantil”, alertou o vice-ministro.

Petersburgo fez este pronunciamento durante a sessão do Parlamento Infantil, realizado entre os dias 14 e 15 do corrente mês na cidade de Maputo, tendo referido que, como forma de delinear medidas conducentes ao combate às piores formas de trabalho infantil, o Governo preparou uma proposta de Plano de Acção de Combate às Piores Formas do Trabalho Infantil, bem como a proposta da Lista de actividades que não podem ser exercidas pelas crianças.

O referido Plano de Acção e a Lista de Trabalhos Perigosos, segundo Petersburgo, foram recentemente validados na Conferência Nacional, onde participaram, para além, dos parceiros sociais, forças vivas da sociedade civil em representação de todo o país, com grande destaque para a participação activa do Parlamento Infantil.

“É através desse instrumento que o Governo, os parceiros sociais, a própria criança, terão uma plataforma contendo medidas e acções concertadas para a prevenção e combate às Piores Formas de Trabalho Infantil”, disse.

Ajuntou que o Plano de Acção contempla medidas que concorrem para assegurar o acesso à Educação da criança, acções que visem a retenção da criança na escola e a melhoria do ambiente escolar.

O vice-ministro apontou o fortalecimento da capacidade familiar de criação de renda, através de programas sustentáveis e integrados de empoderamento das famílias afectadas como uma das formas de combate ao trabalho infantil.

“É preciso também fortalecer as instituições e o quadro legal, onde se preveja uma melhor e maior coordenação das instituições que lidam com o bem-estar da criança, a revisão do quadro jurídico referente ao trabalho de menores e aplicação consequente e vigorosa da legislação que protege a criança, como meios para estancar o mal”, concluiu. In “Olá Moçambique” - Moçambique

Guiné-Bissau - Conferência dos Tribunais Constitucionais dos Países de Língua Oficial Portuguesa

Bissau – A Guiné-Bissau vai ser palco da próxima Conferência dos Tribunais Constitucionais dos Países de Língua Oficial Portuguesa, prevista para Abril do próximo ano.

A revelação foi feita hoje em declarações à imprensa por Fernando Jorge Ribeiro, membro da subcomissão da organização do referido evento, depois de um encontro com o presidente da Assembleia Nacional Popular (ANP) Cipriano Cassamá.

Fernando Ribeiro destacou que a sua comissão iniciou contactos preparatórios com os diferentes membros de órgãos da soberania de estado, a fim de mantê-los informados da existência da comissão.

“É uma conferência instituída não há muito tempo, cuja presidência é rotativa entre os países membros. A última presidência foi exercida pelo Brasil e Cabo-Verde deveria ser o país substituto, não foi o caso porque só recentemente foi criado um tribunal constitucional em Cabo-Verde, razão pela qual a Guiné-Bissau assumiu a presidência desta conferência como sendo também o substituto directo de Cabo-Verde”, afirmou Fernando Ribeiro.

Acrescentou que antes da conferência serão realizadas algumas palestras, para troca de impressões e sensibilização das autoridades sobre a necessidade da conferência receber a atenção merecida de todos. In “Agência de Notícias da Guiné” – Guiné-Bissau

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Niza













Ricardo Gordo com Corvos


China - Produtos alimentares dos Países de Língua Portuguesa promovidos em Chengdu

Cerca de 20 empresas de Macau e dos Países de Língua Portuguesa estiveram este mês em Chengdu, na província chinesa de Sichuan, no âmbito de uma actividade promocional de produtos alimentares, divulgou o Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), em comunicado de imprensa.

A comitiva organizada pelo IPIM levou à capital de Sichuan representantes de 17 empresas dos sectores alimentares de Macau e dos Países de Língua Portuguesa para uma série de actividades, incluindo bolsas de contacto, entre 10 e 13 de Agosto. Eventos semelhantes foram realizados no início deste ano em Zhuhai, Jiangmen, Zhongshan, Guangzhou e Hong Kong.

O evento contou com uma exposição de produtos alimentares, aberta aos cidadãos, com demonstrações de preparo de aperitivos portugueses, degustação de vinhos e outros produtos, bem como um leilão, jogos interactivos e espectáculos musicais dos Países de Língua Portuguesa.

De acordo com o IPIM, mais de 20 mil cidadãos tiveram a oportunidade de ficar a conhecer mais sobre os produtos alimentares dos Países de Língua Portuguesa, num evento que contou ainda com mais de uma centena de compradores a participar em negociações e em bolsas de contacto. No futuro, será realizado um evento semelhante em Hangzhou, na província de Zhejiang. In “Fórum Macau” - Macau

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Moçambique - Desigualdade do género no ensino superior

Até 2013, apenas 0,5% da população total moçambicana era estudante do ensino superior. Deste universo, segundo ilustra o Relatório do estudo sobre género no ensino superior em Moçambique realizado naquele ano, 60,5% eram homens e apenas 39,5% mulheres. De acordo com o mesmo documento, as desigualdades vão desde o reduzido número de mulheres em campos de estudo tradicionalmente tidos como masculinos como a área de ciências exactas e engenharias até ao corpo docente e à liderança das instituições de ensino superior onde os homens são a maioria.

No entanto, pelo menos ao nível da mais antiga instituição de ensino superior do país, Universidade Eduardo Mondlane (UEM), essas disparidades se verificam também nas intenções de candidatura às bolsas de estudo, até porque, tal como referencia o relatório supracitado, esta diferença entre os homens e mulheres caracteriza mais o sistema público do ensino superior que o privado. O último Relatório anual de actividades e financeiros da UEM referente ao ano de 2015 apontava que naquele ano a instituição tinha 1912 estudantes beneficiários de bolsas de estudo, e confirmava-se a tendência de que os homens são os que mais se beneficiam das bolsas de estudo da UEM com 1372 (72%).

“O benefício esmagador masculino das bolsas de estudo prende-se ao facto de ser este o género que mais se candidata a bolsas de estudo e também o que mais admite à UEM”, explica o documento, que define bolsa de estudo como sendo o apoio em bens e/ou serviços de que é beneficiário o estudante carente de recursos financeiros, destinado a suportar parte dos encargos para a frequência e conclusão de um curso.

Entre os vários critérios da atribuição da bolsa, destaca-se o artigo 16 do Regulamento da Bolsa de Estudo, que estabelece que na atribuição de bolsas de estudos, serão ponderados os factores idade e género, privilegiando-se os mais novos e os requerentes do sexo feminino. Entretanto, embora o número de mulheres candidatas a bolsas seja menor que o dos homens conforme referencia o relatório da UEM, a realidade revela haver, por parte desta instituição de ensino superior, algumas fragilidades caracterizadas por reduções do valor e atrasos na atribuição das referidas bolsas de estudo, fenómeno que obriga a que estas mulheres tenham sempre um segundo plano para a sobrevivência, e muitas delas apostam no negócio.

Dificuldades aliam-se à criatividade empreendedora

Virgínia de Lurdes Francisco tem 22 anos e frequenta o 3º ano de Licenciatura em Psicologia no período laboral na UEM. É natural de Nampula e veio a Maputo sob regime de bolsa de isenção, mas o seu desejo é ter uma bolsa completa conforme requisitou logo que admitira, em 2015. “Actualmente vivo no bairro do Zimpeto, na casa de um familiar. Tenho enfrentado várias dificuldades, sobretudo na questão de transporte, reprodução de fichas de estudo, por isso pretendo voltar a concorrer a uma bolsa completa ainda este ano. A bolsa apenas me isenta do pagamento de inscrição das cadeiras. Não tem sido fácil para mim.”

Ter direito a bolsa, há já algum tempo que deixou de ser sinónimo de aquisição do referido valor no tempo certo. Estudantes da mais antiga instituição de ensino superior do país queixam-se dos recorrentes atrasos na obtenção do valor, subida acima de 100% do preço das refeições entre outras adversidades que segundo o presidente da Associação dos Estudantes Universitários da UEM, Salvador Muchidão são justificadas pelo abate, em 50%, do valor que a instituição adquire do Orçamento do Estado.

Aznaida Artur frequenta o 3º ano do curso de Agro-economia e extensão agrária e é beneficiária da bolsa completa que lhe confere o direito a alojamento, isenção de matrícula, pensão no valor de 3000 meticais, dos quais mil são descontados automaticamente para a alimentação no refeitório da universidade e os restantes transferidos para a sua conta bancária para custear a despesas do dia-a-dia, como fichas de leitura, transporte, entre outras.

Apesar de ser beneficiária da bolsa com mais privilégios, Aznaida refere que os termos da gestão da bolsa por parte da universidade não são eficazes pois no seu caso, há benefícios dos quais não disfruta devido a sua rotina, “existe um horário estabelecido para passar as refeições no refeitório da residência que não é compatível com o meu horário na faculdade. As minhas aulas iniciam às 7h e terminam às 19h com alguns intervalos, mas que não coincidem com os horários das refeições” lamenta a bolseira, mais ainda pelos mil meticais que lhe são descontados para este fim. “Este valor é destinado a alimentação, mas não passo as refeições lá. O mais caricato é que a pensão, algumas vezes chega com atraso de dois a três meses” revela a estudante que no dia da entrevista somava o segundo mês sem receber a pensão, sendo obrigada, algumas vezes a recorrer aos pais, que também não têm muito a dar.

Devido à experiência amarga, Aznaida decidiu abraçar o empreendedorismo e não mais ser refém da universidade ou de ajuda. Actualmente, além de estudar comercializa produtos de beleza para as suas colegas da residência universitária. O negócio não lhe rende muito, mas é dessa actividade que ela consegue manter-se sem entrar em conflito com as aulas, enquanto espera pela pensão.

Tal como Aznaida, Lucinda Feraz é bolseira e frequenta o mesmo lar universitário, porém, o regime da bolsa da Lucinda é diferente, contém menos benefícios, um dos quais é o do alojamento. Feraz frequenta o quarto ano de Licenciatura em Educação de Infância na faculdade de Educação e veio de Quelimane para concretizar o sonho de licenciar-se. Ela relata que teve que se esforçar para conseguir alojamento na residência onde mensalmente paga o valor de 750 meticais.

Se existem dificuldades para os beneficiários de bolsas completas, para Lucinda as dificuldades são maiores, a beneficiária da bolsa reduzida revela que também ressente-se do facto de o valor de alimentação ser descontado automaticamente da sua pensão. “Normalmente recebo três mil meticais, no entanto apenas 2000 líquidos, dos quais 750 mt retiro para pagar o alojamento e o valor que sobra não é suficiente para a minha alimentação, fichas e transporte” disse Lucinda. “O valor da pensão sai de dois em dois meses geralmente acumulado mas nem sempre é assim, muitas vezes somos obrigadas a criar dívidas e quando o dinheiro chega serve só para pagar as dívidas e isso acaba nos empatando. Somos estudantes e temos capacidade de auto-gerência, a direcção devia dar o valor completo e para quem quisesse frequentar o refeitório com o valor podia gerir de modo a suprir as suas necessidades. Eu não frequento o refeitório mas sou lesada” desabafou Feraz.

Apresentadas as questões à Associação dos Estudantes Universitários (AEU) e à Direcção dos Serviços Sociais (DSS) da instituição, as estudantes foram recomendadas a “se aguentar, porque a situação está difícil”, contou Feraz, que para suprir certas necessidades, há mais de três meses que Lucinda compra e revende carne de peru e ovos. O lucro ganho é destinado às despesas de alojamento, fichas, transporte para as aulas práticas, entre outras.

Contactado pelo MediaFemme, Salvador Muchidão, presidente da Associação dos Estudantes Universitários da UEM admitiu ter conhecimento dos problemas que os estudantes bolseiros têm enfrentado, até porque são também as suas dificuldades.

Muchidão é estudante do 4º ano de Direito e é beneficiário da bolsa completa. O representante reconhece que os problemas que os bolseiros enfrentam são inúmeros e a justificação mais recorrente da Direcção é a falta de fundos por parte da Universidade pois “a nossa bolsa é contemplada pelo orçamento do Estado, e o orçamento da UEM foi reduzido pela metade. Muitas vezes o Ministério da Economia e Finanças tem levado muito tempo para efectuar o envio do valor para a universidade e daí, para os estudantes”, explicou.

O presidente da AEU revela que estas reclamações têm sido apresentadas com frequência a DSS pois, muitos são os estudantes que dependem exclusivamente daquela pensão e lamenta que a entidade que dirige não tenha muita margem de manobra nesta questão. “A AEU não tem como garantir que este valor chegue em tempo útil, mas temos feito negociações com os serviços internos da universidade. A título de exemplo, já enviamos uma carta à DSS a dar a conhecer que os estudantes bolseiros não poderiam efectuar o pagamento do alojamento no devido tempo pelo que só poderia ser feito quando o valor da pensão fosse enviado” disse.

Uma questão que também deixa os estudantes irriquietos é o facto de o valor das refeições ter subido para mais de 100%, dos anteriores 14mt para 35mt. Muchidão revela que no início do corrente ano, a DSS convocou um encontro para informar que devido a conjuntura financeira do país, a universidade tinha recebido apenas 50% do seu orçamento, o que se reflectiria nos serviços da universidade, em particular no valor das refeições pois eram subsidiadas pela universidade, capacidade que a UEM perdeu. Por essa razão, a universidade pretendia aplicar o valor do mercado, 110 a 150 mt/refeição. O assunto foi discutido de tal maneira que passadas três semanas chegou-se ao acordo de 35mt por refeição, com a condição de que o valor seja revisto logo que o país alcançar um equilíbrio.

UEM sobrevive com 50% do orçamento a menos

O Orçamento da UEM provem de três fontes, orçamento do Estado, receitas próprias e doações. De acordo com a Proposta do Plano Económico e Social e Orçamento da UEM para 2017, documento produzido em Agosto de 2016, o orçamento de Estado da UEM no ano passado foi de 3,227,643.45 mt, dos quais 2,485,553.93 mt provenientes do orçamento do Estado, o maior financiador, doações e contratos, 174,543.30 mt e receitas próprias 567,546.22mt.

Para o presente ano, a proposta do Orçamento Global apresentada pela UEM previa um acréscimo de 41% do patrocínio e estava estimada na ordem dos 4.549,05 milhões de meticais, dos quais, 3.478,36 milhões seriam do Orçamento do Estado (76.46%), as receitas próprias contribuiriam com 567,55 milhões, equivalentes a 12.48% e os restantes 503,15 milhões de proveriam de doações. Contudo, de acordo com Salvador Muchidão, presidente da Associação dos Estudantes Universitários da UEM, o orçamento que o Estado atribuiu foi apenas a metade do esperado, factor aliado à depreciação do metical. In “CEC – Centro de Estudos Interdisciplinares de Comunicação” - Moçambique